o meu primeiro amor "GINASTICA"
Tudo começou em 1974 revolução dos cravos. Tinha 9 anos estava internada no antigo hospital de Almada, tinha sido operada de urgência ao apêndice.
Foi no dia 23 de Abril de 1974, que fui operada, ainda a recuperar deu-se a revolução dos cravos, claro que com a minha idade nada sabia o que estava acontecer! O que era uma revolução? Fui contar ao meu colega do quarto ao lado. Não me lembro do nome dele só sei que era americano/militar e tinha vindo num paquete, estava atracado no Cais do Sodré, teve que ser hospitalizado de urgência para tirar o apêndice, nesse dia quando lhe contei o que se passava, que tinha havido uma revolução, os portugueses estavam na rua, as escolas tinham fechado, ele simplesmente saltou e colocou-se debaixo da cama, fiquei surpreendida e chamei logo a enfermeira pois ele gritava que nem um louco. Endoideceu, mas não! Os ágrafos deram de si, estava cheio de dores e cheio de medo de uma guerra. Meu Deus quando me apercebi do que tinha causado, fiquei assustada e fui ver se o meu pai já tinha chegado, ou se a minha avó já tinha feito a higiene diária, pois nestes dias foi ela que me acompanhou.
A minha mãe ainda estava nos EUA, desesperada pois eu estava hospitalizada. Mais tarde tranquilizei o americano e disse-lhe que tudo se resumia a cravos, uma revolução pacífica que nada tinha a temer, penso que ele não acreditou, sai nesse dia e não me despedi dele ,pois foi operado de urgência, tinha tido mais complicações, até hoje não sei se fui eu a causadora de tantos estragos, mas nunca esqueci do louro de olhos azuis, enorme, com uns 20 anos, cheio de medo, hoje se for vivo deve ter uns 60 anos mais coisa menos coisa.
O meu pai na saída do hospital ofereceu-me uma panda, devia ter mais ou menos 1 metro, foi o meu amuleto durante anos, não sei o que aconteceu a este meu peluche só sei que uns bons anos mais tarde o vi e não achei tão grande, mas era lindo.
Voltei para casa, e como tinha havido uma revolução passamos todos de ano, não é que não fosse boa aluna mas naqueles tempos não havia abébias, os tempos eram outros. O estado não queria que todos passassem. Já viram o que era sermos todos doutores, mas pronto passei o ano. Houve passagem colectiva , claro que fiquei contente, pois como tinha estado 2 semanas afastada da escola não sei muito bem o que me ia acontecer.
O que me preocupava era a ginástica, assim que recuperei, voltei aos meus treinos. Era ai que eu era feliz!
Em Setembro devido à revolução dos cravos as colectividades começaram a ter Actividades/desportos para todas as crianças e assim mudei-me para perto de casa para uma colectividade chamada SFUAP.
O meu 1 treinador, era o professor Alvarez, começou a formar uma classe de competição e eu e o meu irmão vínhamos do Ginásio Clube do sul, da ginasta olímpica, integramos a classe de competição e começamos a treinar todos os dias cerca de 3 a 4 horas. Como a escola ou era de manhã ou de tarde tinha imenso tempo para os treinos, era a miuda mais feliz que conhecia.
Penso que comecei com uns 5 anos a fazer ginástica!
Eu tinha um fato verde! Foi feito para um sarau do GCS. Este fato, acabou por me marcar durante toda a minha estadia na ginástica, pois deram-me a alcunha da Paula do fato verde, todas as minhas colegas tinham um fato preto, não é como hoje que há fatos de todas as cores.
Por um lado foi bom eu fiquei conhecida pelo fato, a minha amiga Beta já não teve tanta sorte, o treinador Zé Augusto, o meu segundo treinador, apelidou-a de cú de bomba, ela era rápida e tinha um traseiro generoso, ainda somos amigas até hoje.
Os treinos eram sempre muito carismáticos ou eu ou outra colega acabávamos a chorar, porque não conseguíamos fazer algum elemento gímnico ou porque o treinador dava uma palmada quando não esticávamos as pernas, sei lá qualquer coisa. Eram sempre treinos intensos, mas eu tinha sempre vontade de voltar. As vezes no final do treino, acabávamos na piscina e saltávamos da prancha dos 5 metros, até o Cara de Vaca aparecer e por tudo na rua. O Cara de Vaca era um senhor que tomava conta da piscina da SFUAP, diziam que ele percebia muito de toda a maquinaria e que conseguia que as piscinas continuassem abertas, já nesta altura comentava-se, pois as piscinas precisavam de muita manutenção, sei que mais tarde morreu electrocutado na casa das máquinas. Ele gostava muito de nós, mas mesmo assim tínhamos medo dele. Diziam que ele comia criancinhas e quando nos apercebíamos que ele estava
a chegar fugíamos e íamos para os balneários, noites mágicas!
Á sexta feira tinha ensaios da banda, tinha que sair do treino mais cedo para ir ao ensaio, era uma seca, o meu pai como estava separado da minha mãe, achou sempre que eu andava na ginástica por causa dela e então arranjou-me uma actividade que ele gostava.
Iinicialmente até gostei de aprender o solfejo , tinha jeito e em pouco tempo, aprendi a tocar um instrumento, a escolha não foi difícil era o instrumento que estava disponível, clarinete, o nome do instrumento foi logo a maldição, talvez por isso comecei a odiar a música, os rapazes gozavam comigo diziam clarineste, e eu ficava corada e cheia de vergonha! Como odiava a música, o pior foi quando passei a fazer parte da banda, era horrível aquela farda. Sempre que ia tocar na banda tinha que vestir umas meias até ao joelho, eu era muito magrinha, perto das minhas amigas da banda todas bem avantajadas. Quando íamos pela rua a tocar eu baixava a cabeça para que ninguém me reconhece-se. Na ginástica o meu treinador me chamava de gorda na banda era magricela, nada fazia sentido por um
lado era magra por outra era gorda, esta dualidade me trouxe uma imagem errada do meu corpo.
Sempre me achei gorda, os meus amigos sempre acharam uma parvoíce, no entanto, quando referia isso achava-me mesmo, é estranho a subjectividade das coisas. Claro que esta dualidade influenciou a minha vida, e talvez por isso sempre tive cuidado com a alimentação.
Hoje acredito que sim, que esta distorção da realidade me tenha levado a ter cuidado e talvez por isso hoje com 50 anos tenha um aspecto mais jovem.
A ginástica era mesmo viciante, até há pouco tempo não tinha tido esta sensação, mas encontrei nos treinos de Grit Series a sensação daqueles treinos de miúda, não sei explicar mas os treinos de ginástica me completavam durante o treino tinha uma vontade enorme que este não acaba-se, no dia a seguir queria voltar para fazer melhor ou aprender algum elemento que estava a iniciar.
No Grit a sensação é diferente mas é um desafio, às vezes penso que não vou aguentar mas nunca desisto isto aprendi com a ginástica! Todos os pais deviam por os seus filhos a fazer um desporto é uma lição de vida, aprendemos a não desistir e a seguir sempre um objectivo.
Tem sido assim, com este espírito que tenho vencido obstáculos e tenho superado desafios!
A vida tem sido generosa comigo, mas também tenho feito por isso.
Dizem que tenho uma estrelinha! DEVE SER A GINÁSTICA!